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16.6.10

Os diários da bicicleta (5)

Breve dissertação matutina sobre o nobre mas não menos odioso acto de engomar. É como em tudo na vida: no princípio é tudo muito bonito, o problema vem depois. Ao fim de três ou quatro peças, ou então de uma única camisa, a piada evapora-se à exacta velocidade da água. A sensação de utilidade para o lar que invade um homem vai embora com a mesma pressa. No caso de ter a necessidade de justificar a preguiça através de algum outro factor mais desculpabilizante, desculpabilize-se com a poupança de electricidade.
Está neste ponto a conversa em que encontro uma saída airosa utlizando o recurso das energias limpas: o vento junto à costa do atlântico norte. Esta t-shirt está aqui e nem tem a noção de ter sido passada a ferro pela nortada no corpo de um homem aos pedais de um texto sobre as vantagens de uma bicicleta.

14.6.10

Os diários da bicicleta (4)


Com vontade de apanhar pelo caminho o domingos aos bocados, fiquei-me pelo processo de intenções, esbarrando o nariz na porta de correr da garagem na cave do prédio. Como em tudo da vida, foi uma questão de chave. Ou se tem e uma porta é uma página nova de um livro por onde se entra ou ao qual se regressa, ou então não se tem e a porta passa a ser uma criatura de ideias fixas, disposta a não nos deixar seguir para lado algum.
Ontem à noite a chave de casa ficou esquecida em cima da secretária, no espaço entre o monitor e o teclado. Ela fica sempre ali, porque desconfio que gosta de ler e de estar atenta às notícias. Para informação delas, as chaves, lhes digo do facto de que à conta de terem passado a noite no cibermundo, ao início desta tarde fui obrigado a guardar meias, sapatilhas, camisola e calções porque a bicicleta estava para lá de uma das tais portas de ideias fixas.
O regresso à estrada de amanhã não passa. Com passadeira vermelha estendida e tudo.

9.6.10

Os diários da bicicleta (3)

A crónica da etapa de hoje da volta à vida em bicicleta começa em Nantes. Não fui a França. A França veio até mim. Dentro um iphone, dentro de um disco, dentro da criatividade de um grupo chamado Beirut. E fica a parecer uma matrioska, a cena destinada a contar a música com que me fiz à estrada por cima da sopa do almoço. Distraído com o facto de o texto se ter entretanto transformado numa salada russa, levei com um pé de água na cara, primeiro, a seguir nos ombros, depois nas pernas e em todo o corpo em poucos segundos. Coloquei a hipótese de partir aquela cara (feia) com que o tempo decidiu sair à rua, concluindo de imediato que não se bate numa tromba de água.


Os diários da bicicleta (2)

O Belmiro nunca foi nunca foi meu avô. Comecei a saber da existência dele em casa da minha avó Emília. Havia fotografias a preto e branco com molduras ovais. Fotografias onde ele fazia pose e sustinha a respiração. Tinha cara de ser um um homem de bem. Um dia encontrei numa velha arca da sala, do tempo em que havia arcas de madeira em todas as casas, um chapéu de polícia. Não era do meu pai. Não era do meu tio. E de certeza que não era da mãe nem da minha avó. Só podia ter sido do Belmiro. Na minha ideia o Belmiro tinha sido polícia.
Sentado no soalho de madeira, acompanhado pelo cheiro da madeira com bicho, retirei da arca um cartão com uma fotografia igual às outras fofografias do Belmiro, muito quieto, muito senhor de si. O cartão dizia Bombeiros Voluntários da Aguda. Com aquele chapéu imaginei logo o Belmiro como o comandante dos bombeiros. Li com mais atenção e vi que o Belmiro era o cobrador.
A família inteira lá me foi explicando que o Belmiro era o meu avô e quando perguntava por ele a facção extremamente católica da família, a minha mãe e a minha avó Emília, respondia que o senhor o tinha chamado para o céu. Eu acho que disse que também queira lá ir.
Soube dos detalhes da morte do Belmiro uns anos mais tarde. Ela tinha uma bicileta preta com um assento largo de couro castanho. Era uma bicicleta como as bicicletas todas daquela zona e daquele tempo. Imagino que também tivesse uma pasta em pele com o livro das cobranças e uma régua de metal para cortar as cotas. O Belmiro morreu em 1965, quando fazia o traballho voluntário para os bombeiros da Aguda. Ia na bicicleta e foi abalroado por um carro na EN109. O carro fugiu e nunca soubemos quem matou o meu avô. Eu nasci quase dez anos mais tarde. Por isso digo que ele nunca teve a oportunidade de ser avô de um rapaz chamdo António.
Peguei na bicileta à meia noite. Vesti um colete florescente e desci sem luz e sem mãos nos travões a estrada que vai atè à Granja. Entrei na EN 109, passei a estação dos comboios e cheguei até perto do cruzamento onde hoje há um semáforo e onde me disseram que o meu avô Belmiro tinha morrido. A estrada é muito movimentada a qualquer hora do dia. Durante todo o percurso não passou nenhum carro por mim, em nenhum dos sentidos. Gosto de pensar que avô Belmiro estava a olhar por mim. Olhei para cima e disse: olá, eu sou o António. Sou teu neto.

7.6.10

Os diários da bicicleta (1)

Os pedais levam os olhos à freguesia onde a mãe vive. Ao descer em direcção à casa da família, o antigo habitante de Serzedo, quanto mais pedala para a frente, mais viaja para trás no tempo. E ao descer o paralelo, empedrado para quem quiser, da rua 25 de Abril ele está aqui e está com dez anos e vai com mais dois miúdos na mesma bicicleta e vão cair os três e aquele que agora pedala sozinho recorda o momento em ficou a saber que tinha escroto e que se a manete do travão direito tivesse perfurado um milímetro a mais, ele um dia não iria poder ter filhos.

Como qualquer bom filho que a casa torna, este que regressa ao final de uma tarde de domingo vai levar um "dvd" para a mãe colocar no leitor do autocarro que há-de partir de Serzedo em direcção a Torremolinos na madrugada desta quarta-feira. Que filmes levou o filho? "As Confissões de Schmidt", com o Jack Nicholson, sobre um viúvo numa autocaravana à procura de um rumo na vida, e a "Vida é Bela", com o Roberto Benigni, sobre a segunda guerra mundial e os campos de concentração, para onde as pessoas eram transportadas em grupo e com os pés nos pedais da bicicleta aquilo tudo começou a parecer uma má escolha para quem vai em excursão. Mas chega de autocarros.
Mudo muito pouco de assunto. Saio do autocarro para me concentrar no camião de um vizinho que é motorista de longo curso. A carroçaria é da cor do vinho tinto. Tem letras amarelas a dizer Eleutério. Fico a pensar se um homem que passa tantos meses fora da porta, não começa a ler adultério ao fim de uns tempos e se aquele patrão não é afinal uma mensagem subliminar. Só o subsídio de desemprego pode salvar aquele casamento. Vamos mudar o meio de transporte. Mas vamos mudar pouco: do camião para a autocaravana. O condutor é o Jack Nicholson, nas "Confissões de Schmidt", e o condutor vai tentar impedir o casamento da filha. Olho pela última vez para o camião do Euleutério e volto a mudar de veículo. Da autocaravana para a bicicleta. Sem filmes.