26.5.10

Gato Pardo

Sentado ao balcão, tenho ao lado um casal muito bem parecido com sessenta e muito poucos anos. Somos os três a plateia do dono do café. Ele gesticula para explicar com os braços a forma como tentou fazer o resgate de um animal doméstico que andava perdido há três semanas. Nesta altura em que tomo atenção ao monólogo entusiasmado do único actor da cena, quando ele baixa um braço e levanta o outro, eu confesso que não estou a ouvir a aventura e dou por mim a pensar numa maneira de escrever a história mais tarde.
O dono do café, sempre depois do fecho, tirava o avental de dono do café e era o homem do assobio. Palmilhava a escuridão dos acessos a casa, empurrava arbustos para o lado, espreitava para lá dos muros, olhava com medo para a estrada, não fosse dar-se o caso de ver na estrada um animal anteriormente conhecido por gato, estragado e morto pelos pneus de algum carro.
Estou na ponta mais à direita da plateia de três. Estamos a assitir ao segundo acto de três. Ao fim de três semanas, o assobio fez eco. Bem, não era bem eco: o assobio teve resposta. Um gato miava come se estivesse rouco, com a falta de força de quem está doente. O homem deixou-se levar pelos ouvidos até um sítio com árvores rasas. Afastou-as todos e ganhou no campo de visão um buraco. Naquele plano picado, o gato pardo podia ser o dele ou não. Em camisa de manga curta, já depois da meia-noite, relativamente longe de casa e sozinho num baldio, sentiu medo e ficou a olhar para o gato, com pele de galinha nos braços. Foi a casa.
No terceiro acto, o dono do café já tem na mão um vara fina de ferro. Na vara amarrou um fio. No fio amarrou uma bola. Enfiou a invenção no buraco à espera que gato se lembrasse de cravar as unhas na bola como um guarda-redes e que viesse à boleia dela para a superfície. Aconteceu o que tinha de acontecer. O gato não era um peixe e por isso aquela espécie de cana foi atirada para o chão. E dono que foi a casa e com o calor da genial invenção nas ideias, nem lhe passou pela cabeça a ideia de um casaco para cobrir os braços.
Tornou a olhar para o gato e gato pareceu-lhe mais pequeno. Arriscou. Meteu o braço direito no buraco e rangeu dentes para o caso de vir por aí alguma dor arrepiante. Mas nada disso! O gato deixou que mão fosse um elevador e decidiu ficar sossegado à espera de ver onde a porta ia abrir. A porta abriu no colo do dono do café e do gato. Ao levá-lo para casa, sentiu-o mais leve no braços. Espantava-se com a façanha de um gato que viveu sempre dentro de casa ter conseguido resistir à morte sem a alcofa, o leite no prato, o fimbre e os enlatados. Como se o intinto animal fosse apenas uma coisa dos livros e nunca uma expressão que encerra realidades.

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