23.5.10

O alfaiate português

No final de estação, e ultrapassadas as inevitáveis vaidades da passerelle, o mundo descartável da moda reunia nos bastidores e aguardava a sentença, sempre absoluta, de juízes extremamente convictos. Entravam pelas portas amplas da rua dos ateliers finos, apontavam o dedo, faziam beicinho, decidiam se sim ou se não com uma minimalíssima expressão de rosto, compreendida de imediato pelo mundo interior de criadores, criadinhos e afins.
A mercadoria reprovada era atirada sem perder tempo para lá da porta estreitinha dos fundos e naquele lugar os fundos confluíam todos num beco com saída para um braço de rua onde haveria de passar o camião do lixo.

Aqui as grandes casas são clubes de futebol. A mercadoria é o jogador de futebol. Os juízes são os directores, os treinadores e os empresários. Milão podia ser uma finíssima escolha para falar de estilistas e arredores, mas não vai ser. Será o lugar onde o camião do lixo chega com a mercadoria, proveniente de inúmeras cidades europeias, com mercadoria que ninguém quis ter, nem sequer na prateleira.
Cambiasso e Sneijder estavam a mais nos catálogos madrilenos. Eto´o tinha conhecido o fim da linha em Barcelona. Diego Milito andou dez anos pelo velho continente sem conseguir convencer nenhuma agência de castings e por aí foi andando sem nunca ter o passe para os grandes desfiles mundiais. É assim parte da história dos jogadores de futebol a quem um dia a saída foi indicada pelo juízo absoluto.
Na capital da moda, o presidente, que era o Massimo, juntou os retalhos todos e mandou emissário à freguesia de Aires. O emissário, chegado ao concelho de Setúbal, encontrou um alfaite também ele atirado para a rua, na condição de milionário, mas para a rua, por um oligarca viciado na roleta russa. O português era o homem à medida do fato. Trabalhou durante dois anos, cortando aqui, cosendo ali, subindo uma baínha, retirando um bolso, acrescentado botões. Ganhou dois prémios anuais italianos. Saíu do quarto de costura e foi a Madrid apresentar o resultado. Os homens mais ricos da cidade, no lugar da criação, compraram o criador. Criaturas!

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