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11.10.10

Não tinha de ser

Lembro-me de ter dormido com as chuteiras aos pés da cama, por cimas dos cobertores, com a colcha branca de renda feita pela minha mãe puxada para trás para não a sujar. As chuteiras pretas com sola preta de pitões de borracha e duas tiras brancas no peito do pé eram minhas desde o meio-dia, a hora em que as  troquei por uma nota de quinhentos escudos na feira de Espinho. Durante a tarde fui à garagem do meu pai, com cuidado para não riscar o carro, e peguei na lata de tinta preta e num pincel. Sentei-me no chão de cimento, peguei nas chuteiras e pintei as tiras brancas de preto, com cuidado para não riscar de preto a tinta branca da chapa do carro. Tinham tempo para secar, as chuteiras, até porque a estreia no pelado do parque de jogos da Rainha, com a camisola do Serzedo estava marcada para as cinco da tarde de amanhã, um sábado de verão de 1985.
Por esses dias, um goleador brasileiro do Fluminense  chegava ao FC do Porto, e apesar de goleador, tinha o lugar tapado por duas botas de ouro nos pés do Gomes. O brasileiro chamava-se Paulinho Cascavel e acabou recambiado para Guimarães, envolvido no negócio do guarda-redes dos juniores, um puto de bigode chamado Best, que devia ser o melhor do Brasília e do Dallas e pouco mais.
Ao longo da épocas seguintes o Cascavel marcou sempre mais golos do que eu, mas ele tinha a vantagem de jogar na relva, a ponta de lança ,com chuteiras adidas, numa equipa que jogava ao ataque, enquanto que eu variava da esquerda para a direita nos campos pelados de Vila Nova de Gaia com as chuteiras da feira de Espinho, esfoladas no osso do dedo grande e com terra por baixo das meias na sola do pé.
Um dia, era eu mariola dos juvenis, onde fazia com simplicidade a posição 10, e vejo na primeira página da Gazeta dos Desportos o Paulinho Cascavel com a camisola do Sporting. Eu continuava com as listas horizontais, a azul e branco do Serzedo, mas tinha por dentro, no coração as cores da camisola do Paulinho. Está na história do futebol português: ele continuou a marcar mais golos do que eu.(outro da do histórico: alguns miúdos jogavam de buço por causa dele).
No último sábado havia a hipótese de jogar de igual para igual com ele pela primeira vez na vida. Os dois no mesmo relvado, com chuteiras parecidas, embora ele continuasse com a vantagem de jogar mais perto da baliza. Para isso era preciso que o Serzedo vencesse o Canelas e que o Guimarães ganhasse à Académica. Assim foi.
O tão esperado encontro dentro das quatro linhas estava marcado para a tarde do último Sábado., num jogo de veteranos. Ele jogou e marcou um golo. Eu fiquei em casa com a rótula partida. Como no resto da história, vantagem para o Paulinho Cascavel. Foi por pouco que não nos encontramos em campo. Estava escrito que não tinha de ser.

O 58º Festival de Cinema de San Sebastian

Na portada electrónica do El País, Diego Luna, actor mexicano, veste um fato cinzento escuro da cor da noite em Nova Iorque, sorri por entre a barba ainda mais escura e segura as mãos de John Malkocivh. John Malkovich, actor estado-unidense, tem um fato bege claro parecido com o fato branco de quando faz de deus no anúncio da Nespresso, que por sua vez é igual aos fatos dos homens da noite na cidade do México. Malkovich tem uma barba ainda mais clara e segura as mãos de Diego Luna. Estão na passadeira vermelha do Zinemaldia, festival de cinema de San Sebastian e um dos mais prestigiados do mundo.
Num hotel que não há-de ser muito dali, multiplica-se a esta hora o sono de outras estrelas de uma constelação diferente. Os homens do futebol do Real Madrid repousam para a visita da noite deste sábado à Real Sociedad, recém-promovida à primeira Liga espanhola, uma das mais prestigiadas dos mundo. Nos sonhos nocturnos, é provável que José Mourinho pergunte quem quer ser José Mourinho.
À hora do jogo entre as duas equipas, no festival de cinema é exibido o filme espanhol "Pássaros de Papel". Retrata a vida de artistas de vaudeville, um género dramático feito à base de comédia frívola (sem importância, sem valor, fútil) de forma ligeira e às vezes picante, dita, cantada e musicada. Na película, os artistas procuram duas coisas: matar a fome e um lugar para dormir, no fim da guerra. Ouvir a expressão comédia frívola remete-me toda energia para o futebol português. O filme não está em estreia, é um remake de um remake de um remake. Um líder sai do país à procura de D.Sebastião, sonhando regressar com ele de mão dada, e com ele trazendo a solução para todos os problemas. Como quem desesperadamente procura uma côdea para a fome e uma cama para deitar o sono. Madaíl procura soluções em pássaros de papel. O ecletismo do Real Madrid não chega ao vaudeville. Há no entanto um sinal positivo: Diego Luna e John Malkovich não se estão a rir do futebol português.

30.6.10

O esqueleto do morto

O que a seguir se relata é a autópsia de um gigante estendido ao comprido num relvado de futebol. Hora da morte: 21 horas e 24 minutos. Local: Cidade do Cabo, África do Sul.

No mundo inteiro passou a haver apenas bocas. Milhões de bocas com dentes de fora. Trincavam a pele, trincavam a carne, rasgavam os músculos, rasgavam as veias, bebiam o sangue. As bocas que já não eram bocas mas eram dentes vinham de todas as casas de todas as ruas, vinham dos parques de adeptos de futebol, vinham nos comboios, nos aviões e nos carros. Estavam no exterior do estádio, em todas os lugares sentados da bancada e nos lugares de pé. Estavam até dentro do balneário.
No dia da morte de uma equipa de futebol, o cadáver não tem tempo de chegar a ser cadáver. O tempo que o tempo precisa para estalar dois dedos é o tempo que o morto demora a ser transformado em esqueleto. Este é o da selecção portuguesa de futebol e ficou assim estendido num relvado africano:
Junto a uma das balizas está um crânio. O cérebro da equipa foi Eduardo. O guarda-redes foi guarda-redes e foi guarda-costas de toda a equipa. Uma, duas, três, quatro, cinco vezes. Vezes de mais. As vezes todas.
No lugar onde jaz o ombro direito da ossada esteve Ricardo Carvalho. Aquele ombro morreu sem dores. Dali não veio a causa da morte. Nem veio dali, nem veio do ombro esquerdo. No sítio do ombro esquerdo esteve sempre Bruno Alves.
Vamos aos braços do morto: do lado esquerdo, uma saúde de ferro, sendo esse o membro mais forte do corpo inteiro. No braço esquerdo, Fábio Coentrão esticava os dedos da "asa" até ao joelho e até aos pés. Ao passar a autópsia para o braço direito, não passamos, por que não há braço direito. Por aquele sítio andaram Paulo Ferreira, Miguel e Ricardo Costa. Foi como se não tivesse por lá passado ninguém. Escreve-se no bloco de notas que está no chão um corpo maneta.
No fundo da coluna vertebral, a zona pélvica está bastante desgatada. Foi ocupado por um jogador cansado, Pepe, e por outro sem rotinas do lugar em dez anos de carreira, Pedro Mendes.
Nos dois lados da bacia existem as marcas dos pitões de Raul Meireles, Tiago e duas ou três pegadas de Deco. O futebol transbordou algumas vezes a partir daquela região, mas não trasnbordou as vezes suficientes.
Este corpo só utilizou um joelho na passagem por África. Umas vezes na direita e outras vezes na esquerda, quase sempre com Simão e uns minutinhos com Danny, as pernas quase nunca flectiram como estavam obrigadas a flectir se o caminho era o tíutlo de campeão do mundo.
E chegamos aos pés. Um é lança-misseis e sabe de cor e salteado todas as ruas, vielas e avenidas de uma terra chamada fundo da baliza. O problema português também esteve no facto de esse pé não ter chegado a tocar chão africano. Esse pé foi Cristiano Ronaldo. No outro, houve momentos de ocupação terrena com Liedson e momentos de ataque em riste com Hugo Almeida. Nenhum garantiu passadas seguras, firmes e tranquilas.
A causa da morte de uma equipa encontra-se na soma de todas as partes. É hora de fazer o funeral ao morto. Sem colocar o treinador no papel de coveiro.

17.6.10

A volta ao mundo em 25 dias (7)

Dia 7 -

Profissão - Não tarda, alteram-se os papéis. Domenech deixa o cargo de seleccionador francês e passa a ser jornalista. É o papel que lhe está destinado na peça Ferrailles e Chiffons, caso aceite o convite. Dizem os astros que a velha Gália está com muitas saudades de ter um treinador de futebol a fazer de treinador de futebol. O México nem precisou de rezar, como se faz na profissão de fé, para vencer uma França parada no campo e parada no tempo.
A profissão mais requisitada do dia foi a de massagista. Em três jogos houve três roturas musculares e três substituições forçadas. Por falar em três, vem Higuain à conversa pelo enorme talento com que desempenha a profissão de futebolista. Os golos não são como o ketchup. São de ouro, como o silêncio, terá de perceber o jogador profissional de clubes chamado Cristiano Ronaldo.

A volta ao mundo em 25 dias (6)

Dia 6 -

Museu - Emagrecido primeiro, e voltado a encher depois, Maradona faz de cada conferência de imprensa o concerto de uma banda drástica. Hoje veio mandar calar as críticas de Pelé e mandou o brasileiro voltar para o museu. Teve piada? Teve. Fez algum sentido? Não. Se esta Argentina for campeã, as federações de futebol do mundo inteiro podem passar a fazer prospecção de treinadores em manicómios.
Por falar em locais de culto com carácter expositivo... A Espanha andava a exibir o troféu de invencibilidade e entrou em campo com a taça de campeã da Europa de futebol na mão e esqueceu que relvado não é museu. Para a Suiça, tudo aconteceu na hora certa.
E para terminar este piscar de olhos ao mundial de futebol, uma pequena sugestão: não esqueçam Diego Forlán, bi-bota de ouro em clubes de segundo plano, no dia em os senhores da bola decidirem inaugurar um museu de futebol.

16.6.10

A volta ao mundo em 25 dias (5)

Dia 5 -

Incompetência - O Nelson Mandela Bay é o primeiro estádio da cidade feito para o futebol. Calhou lá se terem encontrado dois treinadores com elevados níveis de incompetência nesse mesmo desporto, a nível sénior, ao longo das últimas décadas. Selecções como a inglesa, sul africana, mexicana, portuguesa e clubes como o Real Madrid são folhas de serviço com o carimbo de reprovado para Carlos Queiroz e Sven-Goran Eriksson. As vitórias de um e de outro estão cada vez mais longe no tempo, a cada dia que passa. Costa do Marfim e Portugal demonstraram uma tremenda incompetência competitiva. Quem te medo de perder raramente consegue ganhar.
No final do encontro, Deco, que esteve em campo sem a competência desejável disse palavras certas sobre algumas opções do treinador. O problema é que as disse num local onde não tem competência para as dizer: em frente a câmaras de filmar e microfones.
Por último, incompetência também para os homens da FIFA. Eleger Cristiano Ronaldo como o melhor jogador do encontro é ver futebol com a nuca voltada para o relvado.

A volta ao mundo em 25 dias (4)

Dia 4 -

Angústia - Angústia já deu nome a um livro para dizer coitadinhos dos guarda-redes na marca de penalty. Se há lugar ou momento onde o guarda-redes não é nenhum coitadinho é o momento de uma grande penalidade, precisamente por não ter nada a perder. Sim senhor que está ali para dar o peito, mas só está a dar o peito a uma bala de couro. Nos penaltys, o guarda-redes só está a correr o risco de ser herói da partida, da competição, da nação ou do mundo.
Já se tentou rever esta história, colocando antes a angústia no pé do jogador que assume a marcação de um lance sem barreira a onze metros da baliza. Não me parece que angústia seja o termo mais certo para escrever nas costas de um homem que caminha desde meio campo com a obrigação de colocar a bola na rede.
Angústia, angústia sofre o jogador que pelo meio de qualquer volta infeliz num jogo de futebol, coloca, sem qualquer intenção de o fazer, a bola na própria baliza. Isso é que é angústia. Aconteceu ao dinamarquês Christian Poulsen, que abriu caminho ao triunfo da Holanda. Angustiante. E capaz de dar uma verdadeira dor de baliza.

A volta ao mundo em 25 dias (3)

Dia 3 -

Vermelho - E ao terceiro dia do mundial de futebol, caiu por terra uma teoria elaborada cá pelo nosso campeonato e ao longo dos anos por treinador português sem vergonha, segundo a qual é mais difícil jogar contra dez. Essa teoria foi assassinada em directo durante três vezes ao longo do dia, em três estádios diferentes. Ghezzal, Lukovic e Cahill foram expulsos nas selecções da Argélia, Sérvia e Austrália. Em superioridade numérica, a Eslovénia, o Ghana e Alemanha venceram os encontros, com maior ou maior dificuldade. Retomando o raciocínio inicial, os três resultados foram para vários treinadores portugueses corarem de vergonha. Em onze contra dez, quem tem onze tem mais condições para fazer uma trabalho competente. Se não o faz, pode ser por azar ou por incompetência. E nunca pelo facto de o adversário ter ficado mais forte a jogar com menos.

14.6.10

A volta ao mundo em 25 dias (2)

Dia 2 -

Panturrilha - Panturrilha em vez de deus. Mesmo que deus tenha regressado aos campeonatos do mundo de futebol. Mesmo que deus esteja a treinar o sucessor de deus. E panturrilha em vez do frango sofrido pela Inglaterra. Isso eram coisas à espera de acontecer. Maradona é o seleccionador argentino e com a qualificação no bolso tinha de regressar. E a Inglaterra mandou para dentro de campo um guarda-redes com aviso de recepção, como o nome nas costas a dizer Verde. É a mania da superioridade de quem anda sempre a dizer que os americanos não percebem inglês.
Escolho panturrilha como palavra passe do segundo dia do campeonato do mundo, porque panturrilha foi a única coisa que surpreendeu nesse dia. Vinha num jornal que o veterano Véron estava a precisar de descanso por causa de uma dor na panturrilha. Panturrilha aqui não existe, mas noutras partes do globo quer dizer barriga da perna. Descanso e massagens devem resolver o problema. Não pode é Maradona ser o massagista. Ele tem sempre o terço numa das mãos. Será na do golo à Inglaterra em 1986 ou na do episódio em que saiu de mão dada com uma enfermeira para o controlo anti-doping em 1994? Neste mistério da fé estará o sucesso da Argentina na África do Sul. Esteja como estiver a panturrilha de Juan Sebastián Verón.

A volta ao mundo em 25 dias (1)

Dia 1 -
Tshabalala - O nome pode ser cantado sem o menor esforço no refrão de uma música pop, em grupo, num teatro, num pavilhão, ou num estádio, como quem grita um golo. A ajudar à festa, o clube onde joga o homem que marcou o primeiro golo no mundial da África do Sul tem o nome de um grupo de rock: Kaizer Chiefs.
Com o refrão à mão de levar à boca e com uma banda no palco, de estranhar seria se não houvesse espectáculo. Foi como se o destino estivesse escrito nas estrelas. Sthiphiwe Tshabalala quando era demasiado velho para ser das camadas jovens e demasiado novo para entrar no futebol dos adultos foi emprestado pelo Kaiser Chiefs ao Free Stars. Cresceu e tornou-se num dos melhores jogadores dos Kaizer Chiefs. Estava a seguir o caminho certo e por ali foi parar à selecção da África do Sul. Estava a meio do jogo 50 Bafana-Bafana quando abriu a asa esquerda e fez a bola voar até a um dos dois sítios da baliza onde é possível fazer ninhos. E ali nasceu um herói nacional.
A história dava para escrever a letra de uma música rock. Não a deixaremos terminar sem antes esclarecer que é a banda que tem o nome de um clube de futebol sul-africano. Nos anos noventa, uns putos de Leeds veneravam o capitão Lucas Radebe. Isso tudo: Radebe é sul-africano e tinha sido contratado pelo Leeds ao Kaizer Chiefs. O mundo é pequeno. Do tamanho de uma bola.

27.5.10

O réptil

Em fim de ciclo, o treinador de futebol está sozinho na selva e é o primeiro a ouvir barulho da cobra no mato, a arrastar o fim.
Hoje o estádio está cheio, os jogadores está a marcar muitos golos, o futebol que a equipa tem para apresentar podia até ser vendido em pequenos frascos como um perfume. O barulho nas bancadas tem o cheiro da vitória. Estão todos surdos no estádio, menos um. No clube em que está, o treinador sabe que quanto mais longe do primeiro lugar, mais perto da porta de saída. Mais perto da selva.
Num passe mais largo rente ao chão, o som do couro da bola a cortar a relva entra nos ouvidos no treinador como o tal barulho da cobra prestes a engolir um homem inteiro. O animal que o devora, não o devora sem antes lhe deixar as pistas todas sobre a evolução da relações humanas. Os répteis não sobrevivem sem a renovação dos tecidos. Não crescem sem a mudança total e recorrente de pele. Uma pele velha que tenha resistido à substituição pode fazer apodrecer os novos tecidos ou pode causar necroses. Elementar meu caro treinador de futebol.
Nesta fase de peles em trânsito, a nova que está para chegar, mas que só chegará saudável se tiver havido a remoção total da anteriro, nesta fase a ciência aconselha: nada de stress e cuidados com parasitas externos.
Um clube de futebol sobrevive no jogo da imitação dos répteis. O treinador é a pele. A essa, já vimos o que acontece de tempos a tempos.

25.5.10

O chão que ela pisa

Sabe bem o frio do soalho de madeira por baixos dos pés. Estes dois encaminharam o corpo daqui para o lugar onde está uma fruteira em arames de inox. O corpo regressou com uma maçã nas mãos e com os pés felizes. O esquerdo e o direito, só costumam sorrir assim quando estão a tentar desenhar a última obra prima, no interior de um par de chuteiras. Não é normal o facto de andarem como se andassem nas nuvens no estado de nudez em que se encontram, mas para isso há uma explicação e a explicação é a de o soalho estar a bombear ar puro ao corpo inteiro. Chegando ao ponto de arejar a própria cabeça de um português desiludido com o futebol de uma selecção que teima em meter os pés pelas mãos.
Vamos então ao chão que ela pisa, sendo que o chão que ela pisa, aqui, não poderá ser nunca o livro de Salman Rushdie musicado pelos U2 sobre a história de uma banda com um casal no meio. O chão que ela pisa é neste particular o caminho feito e a fazer pela selecção portuguesa de futebol. Sem recurso ao GPS, chego-me à frente para afirmar com estas letras todas que por este andar, mantendo esta rota, e nesta velocidade de quem vai em passeio, a África do Sul que vai surgir no horizonte é o fim de um continente numa falésia sobre o mar revolto e numa zona sem praia. Adivinha-se queda livre e inevitável naufrágio. E isso seria uma tormenta.
A selecção portuguesa que jogou e empatou a zero com Cabo Verde, essa de Queiroz, cabe na metáfora de uma mulher de século XVIII dentro do espartilho. O meio campo, está preso ao chão por cordas que podiam ser as cordas que esmagam a cintura. Com isso, lá em cima, no ataque, respira-se com dificuldade normal de quem tem falta de ar, de bola. Em baixo, na defesa, não chegou a dar para ver se junto à relva, a defesa portuguesa dá os sinais vitais que os meus pés dão sobre o frio confortável deste soalho. (professor, estamos na era do topless. Ponha lá os rapazes à solta.)

23.5.10

O alfaiate português

No final de estação, e ultrapassadas as inevitáveis vaidades da passerelle, o mundo descartável da moda reunia nos bastidores e aguardava a sentença, sempre absoluta, de juízes extremamente convictos. Entravam pelas portas amplas da rua dos ateliers finos, apontavam o dedo, faziam beicinho, decidiam se sim ou se não com uma minimalíssima expressão de rosto, compreendida de imediato pelo mundo interior de criadores, criadinhos e afins.
A mercadoria reprovada era atirada sem perder tempo para lá da porta estreitinha dos fundos e naquele lugar os fundos confluíam todos num beco com saída para um braço de rua onde haveria de passar o camião do lixo.

Aqui as grandes casas são clubes de futebol. A mercadoria é o jogador de futebol. Os juízes são os directores, os treinadores e os empresários. Milão podia ser uma finíssima escolha para falar de estilistas e arredores, mas não vai ser. Será o lugar onde o camião do lixo chega com a mercadoria, proveniente de inúmeras cidades europeias, com mercadoria que ninguém quis ter, nem sequer na prateleira.
Cambiasso e Sneijder estavam a mais nos catálogos madrilenos. Eto´o tinha conhecido o fim da linha em Barcelona. Diego Milito andou dez anos pelo velho continente sem conseguir convencer nenhuma agência de castings e por aí foi andando sem nunca ter o passe para os grandes desfiles mundiais. É assim parte da história dos jogadores de futebol a quem um dia a saída foi indicada pelo juízo absoluto.
Na capital da moda, o presidente, que era o Massimo, juntou os retalhos todos e mandou emissário à freguesia de Aires. O emissário, chegado ao concelho de Setúbal, encontrou um alfaite também ele atirado para a rua, na condição de milionário, mas para a rua, por um oligarca viciado na roleta russa. O português era o homem à medida do fato. Trabalhou durante dois anos, cortando aqui, cosendo ali, subindo uma baínha, retirando um bolso, acrescentado botões. Ganhou dois prémios anuais italianos. Saíu do quarto de costura e foi a Madrid apresentar o resultado. Os homens mais ricos da cidade, no lugar da criação, compraram o criador. Criaturas!

22.5.10

O comboio de Liège

... acontece que no ano 2000 o mundo já era todo moderno. Daí vem o facto de eu ter estranhado a cor antiga das carruagens castanhas. O interior usado mas limpo de cada uma sem excepção. Resumindo: o ar velho - velho mas ainda não tão velho que se pudesse chamar antigo - do comboio responsável por unir de forma quase directa a cidade de Spa à capital Bruxelas. Admirei a Bélgica por ser um país mais rico do que Portugal e por não desperdiçar dinheiro em vaidades para as quais o dinheiro é caro.

Estou a fazer parte do caminho de regresso a Portugal. O táxi tinha chegado sem falta às 5 da manhãm ao hotel Dorint, onde fui jornalisticamente muito bem baptizado (Manuela Brandão, Eugénio Queiros, Jorge Monteiro, António Casanova; Paulo Duarte, Rui Gomes, Paulo Silva, etc, etc etc,). Fomos de Spa pelas luzes do carro e dos postes até Liège. No comboio era eu, a minha mala, o meu sono e belgas a caminho da ruralidade dos empregos. Tanto era o sono que já não me lembro se o comboio chegou perto do aeroporto ou se cheguei a seguir caminho noutro táxi. É indiferente.
À hora a que adormeço no avião para o Porto, nesse princípio de verão do ano 2000, Louis Van Gall é despedido do Barcelona e chega a seleccionador da Holanda. José Mourinho está para fazer a estreia como treinador principal no Benfica. Nesse mesmo defeso, um miúdo de 20 anos, Diego Milito, está começar uma época que vai terminar com o título de campeão argentino no Racing Avellaneda. O nome Robben só é conhecido nas camadas jovens do Groningen. Júlio César é um goleiro "minino" no Flamengo. Sneijder e Cambiasso ainda têm cabelo e jogam nas escolinhas do Ajax, um, e no Independiente, outro. A lista começa a parecer um comboio que não vai a lado nenhum. Já cá voltamos.

Meia dúzia de dias antes, uma sucessão de acasos leva-me ao sítio onde vou acabar esta história. O FC do Porto quer contratar Dimitri Alenitchev. Sei que é russo e que joga no Perugia de Itália. O Perugia está em Liège para jogar uma eliminatória da taça Intertoto. Apanho boleia dos camaradas de reportagem do jornal A Bola e consigo o exclusivo radiofónico da primeira entrevista do médio ofensivo russo para Portugal.
O dia seguinte é o dia do jogo entre o Standard de Liège e o Perugia. Conseguimos as acreditações necessárias e vamos para o estádio fazer a cobertura do encontro com o futuro reforço portista. Logo à entrada julgo que o Eugénio me chama à atenção para o Luciano D´Onofrio. Do nada reparo num personagem que à partida não devia fazer parte daquela história. Estavamos à procura de algum emissário do FC Porto e nada. Quem está em Liège para assistir ao jogo é o presidente da SAD do Sporting, o Luís Duque. Lá perguntámos se ele queria também o Dimitri. Ele sorriu e disse que não, que não. Estava à procura de um defesa central. Quem? "O Daniel". Quem é o Daniel? "O Van Buyten". Ouvi este nome pela primeira vez e depois disso confesso que acompanhei sempre à distância a carreira de um central que nunca chegou a vestir a camisola do Sporting.
Hoje voltei a reencontrar o Daniel, por via da transmissão televisiva. Tinha uma camisola vermelha com o número 5. Levou pela frente com o rapaz que um dia foi um miúdo do Racing de Avellaneda. E descarrilou como nunca descarrilaria um velho comboio belga.

PS: no resto da história, o treinador debutante ganhou ao seleccionador da Holanda.