17.6.10
A volta ao mundo em 25 dias (7)
A volta ao mundo em 25 dias (6)
16.6.10
Os diários da bicicleta (5)
A volta ao mundo em 25 dias (5)
A volta ao mundo em 25 dias (4)
A volta ao mundo em 25 dias (3)
14.6.10
A volta ao mundo em 25 dias (2)
A volta ao mundo em 25 dias (1)
Os diários da bicicleta (4)

13.6.10
O amor dança aos pares
Quero bilhetes para dois lugares na fila frente, ao centro. Quero entrar nesse teatro antes da hora. É para ensaiar. Não, não sou actor, nem bailarino. Quer dizer às vezes sim. Sim o quê? Os dois. Bilhetes? Não, actor e bailarino. Sei chorar quando penso que o dia vai doer muito. E também sei fazer de conta que não sei de nada disso e saio de casa com dois braços bem educados e um par de olhos felizes. Digo-lhe de resto que a minha parte de bailarino vem precisamente daí. Do sítio onde as lágrimas se escondem no segundo em que as pálpebras abrem e as pálpebras fecham, fazendo as duas o paso doble e claro que isto tudo só se passa nas vezes em que a vida é uma tourada.
Quero dois bilhetes para ver a loucura de perto. Aproximem o espelho. Consigo ver nele um palco. E no chão do palco vejo os meus pés dentro dos sapatos oferecidos pelo mágico que se cansou de olhar para a cartola e de esperar que amor de lá saísse no próximo truque. Deu-mos no dia em que se reformou e morreu sem saber que o amor a meio da magia se tinha divido em dois e estava há décadas perdido nos atacadores destes sapatos pretos. Os bilhetes são para ver os dois lados do amor. Era de se lhe tirar o chapéu, se o amor fizesse dançar uma perna e depois a outra. E tomasse conta do movimento das ancas.
12.6.10
A história da vida de um disco
A música Fake Plastic Trees entrou na minha vida pela porta do lado esquerdo do meu Fiat 127 azul escuro. Estava escondida dentro de uma cassete BASF preta, onde eu tinha gravado, por milagre, o The Bends de uma ponta à outra, sobre uma fita com a história dos anos 80, uma fita com gravações e re-gravações de jogos do ZX Spectrum.
Nesse dia tinha acordado cedo. Apanhei o autocarro da Sequeira, Lucas & Venturas para poupar dinheiro porque tinha o passe. Demorei duas horas e ir ao e a vir do Porto. Tinha gasto quase todo o dinheiro que tinha juntado nos meus anos. A viagem de regresso a Serzedo foi como se estivesse a regressar da Nova Zelândia: o cd The Bends ardia-me nas mãos. Li e reli a capa e contra-capa. Fiquei feliz por não ter saído na noite anterior e por ter poupado mais um dinheirinho com isso. Tinha dormido bem, estava fresco e ainda me tinha sobrado um nota de mil escudos e outra de quinhetos, como resultado dos cinco contos que tinha levado no bolso para o Porto.
O Fiat 127 foi durante uma fase da minha vida o meu relógio, o meu controlo emocional, o meu destino: saía à hora em que ele decidia pegar, aguentava-me à bronca que era o remédio e chegava onde ele decidia parar. Nesse dia fez-me as vontades todas. Arrancou quando eu quis, ouviu o disco comigo e por vezes acho que só não foi abaixo porque estava a cantar comigo e com o leitor de cassetes.Não muito longe casa, já estamos, eu e o carro, mais do que saciados quando começa a ser possível perceber que High and Dry está a chegar ao fim. Valeu! Valeu por tudo, valeu pelos três contos e quintentos em 1995, valeu pela viagem de camioneta ao Porto, valeu por ter ido e voltado a pé da discoteca à paragem dos autocarros.
O silêncio não deve ter demorado 5 segundos. A seguir veio Fake Plastic Trees… fui nadar e conseguia respirar debaixo de água. Pensei ter sido sugestão da capa do disco, mas não era. Cada acorde proporionava uma braçada para diante. Cada palavra dizia os segredos todos do fundo do mar. E depois havia ainda mais ao fundo uma luz que parecia verdadeiramente uma luz, mas não era, era o mundo. E a profundidade do mar tinha sido o regresso à barriga da minha mãe. E quando tudo parou, ali estava eu: um rapaz sentado num FIAT 127 , de frente para a praia num dia chuva com os dois vidros abertos. Certo de ter acabado de nascer. E quis nascer de novo. E voltei a puxar a fita atrás.
10.6.10
Confissões africanas
O meu mundial de futebol morre na praia antes do lugar onde as dunas nascem.O árbitro foi o primeiro a ser avisado de todas as circunstâncias e decidiu ficar em casa. Sem o apito, vai ser preciso recorrer ao estrondo de um ponto final para terminar este encontro.
[photo @ VNGaia]
9.6.10
Os diários da bicicleta (3)
A morte do artista
Os diários da bicicleta (2)
Sentado no soalho de madeira, acompanhado pelo cheiro da madeira com bicho, retirei da arca um cartão com uma fotografia igual às outras fofografias do Belmiro, muito quieto, muito senhor de si. O cartão dizia Bombeiros Voluntários da Aguda. Com aquele chapéu imaginei logo o Belmiro como o comandante dos bombeiros. Li com mais atenção e vi que o Belmiro era o cobrador.
A família inteira lá me foi explicando que o Belmiro era o meu avô e quando perguntava por ele a facção extremamente católica da família, a minha mãe e a minha avó Emília, respondia que o senhor o tinha chamado para o céu. Eu acho que disse que também queira lá ir.
Soube dos detalhes da morte do Belmiro uns anos mais tarde. Ela tinha uma bicileta preta com um assento largo de couro castanho. Era uma bicicleta como as bicicletas todas daquela zona e daquele tempo. Imagino que também tivesse uma pasta em pele com o livro das cobranças e uma régua de metal para cortar as cotas. O Belmiro morreu em 1965, quando fazia o traballho voluntário para os bombeiros da Aguda. Ia na bicicleta e foi abalroado por um carro na EN109. O carro fugiu e nunca soubemos quem matou o meu avô. Eu nasci quase dez anos mais tarde. Por isso digo que ele nunca teve a oportunidade de ser avô de um rapaz chamdo António.
Peguei na bicileta à meia noite. Vesti um colete florescente e desci sem luz e sem mãos nos travões a estrada que vai atè à Granja. Entrei na EN 109, passei a estação dos comboios e cheguei até perto do cruzamento onde hoje há um semáforo e onde me disseram que o meu avô Belmiro tinha morrido. A estrada é muito movimentada a qualquer hora do dia. Durante todo o percurso não passou nenhum carro por mim, em nenhum dos sentidos. Gosto de pensar que avô Belmiro estava a olhar por mim. Olhei para cima e disse: olá, eu sou o António. Sou teu neto.
7.6.10
Os diários da bicicleta (1)
Como qualquer bom filho que a casa torna, este que regressa ao final de uma tarde de domingo vai levar um "dvd" para a mãe colocar no leitor do autocarro que há-de partir de Serzedo em direcção a Torremolinos na madrugada desta quarta-feira. Que filmes levou o filho? "As Confissões de Schmidt", com o Jack Nicholson, sobre um viúvo numa autocaravana à procura de um rumo na vida, e a "Vida é Bela", com o Roberto Benigni, sobre a segunda guerra mundial e os campos de concentração, para onde as pessoas eram transportadas em grupo e com os pés nos pedais da bicicleta aquilo tudo começou a parecer uma má escolha para quem vai em excursão. Mas chega de autocarros.
Mudo muito pouco de assunto. Saio do autocarro para me concentrar no camião de um vizinho que é motorista de longo curso. A carroçaria é da cor do vinho tinto. Tem letras amarelas a dizer Eleutério. Fico a pensar se um homem que passa tantos meses fora da porta, não começa a ler adultério ao fim de uns tempos e se aquele patrão não é afinal uma mensagem subliminar. Só o subsídio de desemprego pode salvar aquele casamento. Vamos mudar o meio de transporte. Mas vamos mudar pouco: do camião para a autocaravana. O condutor é o Jack Nicholson, nas "Confissões de Schmidt", e o condutor vai tentar impedir o casamento da filha. Olho pela última vez para o camião do Euleutério e volto a mudar de veículo. Da autocaravana para a bicicleta. Sem filmes.
4.6.10
Graças a deus
Deus veio na cauda de um enxame, já diz a música, e mal chegou pegou num copo de vinho e deciciu dançar. Dança bem, para quem anda no mundo desde o início dos dias. E que não venha com coisas, porque aquela pose de quem está sentado sentado ao balcão só é conseguida por quem já passou noites sem fim a ver a vida no fundo de um copo, à espera de falar com deus. Neste caso, a falar com ele próprio. Louvado seja deus.
Sobre a arte individual de usar um colete como peça do vestuário masculino, há só a dizer o seguinte: é coisa para não se fazer, porque não está ao alcance dos comuns mortais.
No resto deste projecto a dividir em partes iguais aulas de música e pela estudos teológicos, confirma-se que uma mentira repetida muitas vezes chega a ser verdade: ele tem barba. E voz de deus.
The National - Bloodbuzz Ohio
Os bastardos do ditador
Os três estão agora como nós todos, aos milhares, empatados a zero quilómetros por hora no asfalto da A28. A A28 mudou de nome, antes era IC1, e está à beira de oficializar a mudança de sexo, mas para tal é preciso dinheiro e para ter dinheiro e para ter dinheiro mandaram construir portagens na entrada e na saída da senhora.
Nós entretanto fomos transformados em caracóis e seguimos viagem devagarinho no dorso de asfalto do travesti inventado pelo governo. Mas vamos voltar aos três especialistas na arte de servente, deslocalizados em Viana do Castelo. Eles estão na carrinha aqui ao lado. O mais velho tem o cabelo a ficar branco, a cabeça a ficar impaciente com a demora e o juízo a ficar louco. Vem com o pescoço esticado para fora da janela a dizer que o protesto é uma vergonha e o que é preciso é um Salazar.
Falta muito para chegar ao Porto. O episódio repete-se. A democracia liberta a opinião, os lesados queixam-se do males que os conduzem ao papel de injustiçados e vem logo a seguir um fiel (tipo cão de fila) seguidor da ditadura. A este ocasional filho de Salazar, para não ter de lhe chamar filho de outra, convém lembrar que nos dias do coveiro da nação, ir de Viana do Castelo ao Porto era coisa para demorar umas cinco horas, ou até mais. A marcha lenta, se tivesse ido sempre a 40 quilómetros por hora, que não foi, só teria demorado duas horas. Afinal o tamanho "incómodo" da democracia é bem mais passageiro do que a perfeição ordeira do tempo do outro senhor. E o bastardo do ditador, lá chegou mais cedo a casa, no regresso do trabalho, mesmo tendo que aturar a insuportável velocidade do barulho da liberdade.
1.6.10
Conflito internacional
O último cantor de charme
No século anterior ao século do casamento entre as pessoas do mesmo sexo, o Reininho já casava nos textos as palavras homossexuais, palavras que nunca se tocariam na métrica dos poetas e dos trovadores anteriores, mas que nos cadernos dele nasceram e dos cadernos dele foram conquistando o país inteiro, com a força de um Afonso Henriques, mas com a graça de uma rapariga pronta para a colheita.
O melhor do Porto é a voz do Reininho. É o palco onde ele surge, esguio ao microfone, de colarinhos moles ao pescoço, com as calças curtas e os tornozelos com vontade de espreitar a plateia. O melhor do Porto é a alegria da músicas antigas. É uma voz rouca. Aguda. À beira de uma ataque de verbos. É o som das letras do último cantor de charme em português.
