13.6.10

O amor dança aos pares

Quero bilhetes para dois lugares na fila frente, ao centro. Quero entrar nesse teatro antes da hora. É para ensaiar. Não, não sou actor, nem bailarino. Quer dizer às vezes sim. Sim o quê? Os dois. Bilhetes? Não, actor e bailarino. Sei chorar quando penso que o dia vai doer muito. E também sei fazer de conta que não sei de nada disso e saio de casa com dois braços bem educados e um par de olhos felizes. Digo-lhe de resto que a minha parte de bailarino vem precisamente daí. Do sítio onde as lágrimas se escondem no segundo em que as pálpebras abrem e as pálpebras fecham, fazendo as duas o paso doble e claro que isto tudo só se passa nas vezes em que a vida é uma tourada.

Quero dois bilhetes para ver a loucura de perto. Aproximem o espelho. Consigo ver nele um palco. E no chão do palco vejo os meus pés dentro dos sapatos oferecidos pelo mágico que se cansou de olhar para a cartola e de esperar que amor de lá saísse no próximo truque. Deu-mos no dia em que se reformou e morreu sem saber que o amor a meio da magia se tinha divido em dois e estava há décadas perdido nos atacadores destes sapatos pretos. Os bilhetes são para ver os dois lados do amor. Era de se lhe tirar o chapéu, se o amor fizesse dançar uma perna e depois a outra. E tomasse conta do movimento das ancas.


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